Há, entre os seres humanos, duas atitudes fundamentais diante da existência: a vigília e o sono da consciência. Não se trata do dormir do corpo, mas do estado interior pelo qual percebemos — ou deixamos de perceber — a realidade. Alguns caminham pelo mundo despertos, atentos ao que pensam, sentem e fazem; outros se movem como que embalados por hábitos, crenças e automatismos, vivendo sem realmente ver.
A noite, metáfora do desconhecido e da incerteza, sempre se adensa sobre a vida. Em certos momentos ela nos envolve completamente, como se a escuridão nos abraçasse. Nesse cenário, surge diante de nós uma ponte estreita, sem corrimão: o caminho inevitável das escolhas, das crises, das transformações. Cada travessia é um momento decisivo da existência. Não há garantias, não há proteção absoluta — apenas o passo que damos.
A pergunta, então, não é se atravessaremos ou não. Todos atravessam. A verdadeira questão é como atravessamos.
Alguns atravessam de olhos fechados, confiando na repetição dos gestos aprendidos, nas opiniões herdadas, nas narrativas prontas que oferecem conforto. É uma travessia hipnótica, onde a consciência se torna adicta da realidade aparente — dependente das imagens, dos ruídos e das ilusões que o mundo projeta. Nesse estado, a pessoa acredita ver, mas apenas repete; acredita escolher, mas apenas reage.
Outros atravessam de olhos abertos. Não porque vejam tudo com clareza — a noite continua sendo noite —, mas porque permanecem presentes. Eles sabem que caminham sobre o mistério e aceitam essa condição. A consciência, nesse caso, é sóbria e lúcida: não foge da realidade, mas também não se deixa embriagar por ela. Observa, questiona, discerne.
A sobriedade da consciência não significa ausência de emoção ou de risco; significa apenas que o espírito não se entrega ao entorpecimento da inconsciência. É o estado daquele que percebe que a vida é uma travessia contínua, onde cada passo pede atenção e responsabilidade.
Talvez, no fundo, despertar seja justamente isso: perceber que a ponte sempre esteve ali, que a noite sempre nos envolveu, e que a escolha mais importante nunca foi evitar o caminho — mas decidir se caminharemos dormindo ou despertos.
A escuridão não desaparece para quem abre os olhos.
Mas quem os abre aprende a caminhar dentro dela. ✨
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